Marcelo Freixo é entrevistado e promete mudar regras do carnaval carioca



Marcelo Freixo é entrevistado e promete mudar regras do carnaval carioca

Entrevista com Marcelo Freixo (download) - 22/08/2012





A era do samba-jingle: É assim: o cara paga, compra um enredo, e leva de brinde hora e meia de exposição:


Era uma vez um carnaval pra lá de equivocado. O samba, ruim, o enredo, mal desenvolvido, o patrocinador sem retorno e um resultado que, de confete, virou cinzas e rebaixamento.

Não, este não é um novíssimo tema de escola de samba buscando inovar sob a fantasia da metalinguagem. Aconteceu de verdade. Em 2012, a Unidos do Porto da Pedra cantou em verso, prosa e paetês a história do iogurte. Perdeu a escola.


Cinco meses após a última folia, porém, vemos que ele, o iogurte, acabou saindo vencedor, apesar da esmagadora derrota na apuração: quase todos os enredos de 2013 seguirão a mesmíssima cartilha e são assumidamente (mal) patrocinados.


Não se trata de patrocínio cultural algo louvável em uma festa inflacionada , mas sim a quase completa abertura para marcas, países, raça de cavalo e até mesmo uma campanha ligada à divisão dos royalties do pré-sal buscarem promoção e divulgação.


Foi em 1985, no Império Serrano, o primeiro grande aporte corporativo para o desenvolvimento de um carnaval. O enredo Samba, suor e cerveja Combustível da ilusão foi, em parte, bancado por uma cervejaria. À época, os patronos temeram a perda de poder para um capital com o qual não mantinham a mesma intimidade conquistada em relação àquele circulante nas ruas: trataram de proibir merchandising na pista e o bicho pegou para o lado de quem ostentava apoio de alguma marca. Com o tempo e a reconfiguração das relações momescas, a brincadeira foi mudando de coloração. Em 2002, Salgueiro e Beija-Flor, cada qual com uma companhia aérea a tiracolo, assumiram apresentações patrocinadas. Já Rosa Magalhães, ainda na Imperatriz Leopoldinense, deu um lençol numa verba que, em teoria, deveria homenagear a cidade de Campos (RJ) com bolo e velinhas: falou de antropofagia até desembocar no Modernismo.

A prefeitura, claro, chiou, e os novos mecenas resolveram apertar o controle temático.

Poucos se dignaram a pensar se a lógica de associação das escolas com o capital empresarial está estruturada de forma correta.


A coisa passou a funcionar, grosso modo, assim: o cara paga, compra um enredo, e leva de brinde uma hora e meia de exposição.


Foi desse jeito que para o ouriçar dos puristas até mesmo o gás de Coari (!) virou enredo. Os sambas que, nos últimos anos, conseguiram projetar-se (Portela e Vila Isabel, em 2012, são bons exemplos) escaparam da banalidade dos jingles-enredo.


Se as escolas preferirem galopar no ritmo atual, assistirão, da garupa do cavalinho, ao desenrolar de seu drama, como coadjuvantes ofuscadas pelo protagonismo de lactobacilos, ervilhas em conserva, planos de seguro-funeral e o que mais possa ser vendido.


Perigam afundar até a camada do pré-sal e morrer diluídas, como compostos inorgânicos do ouro negro brasileiro.





RIO - Em entrevista ao telejornal RJ TV na noite desta quarta-feira, o candidato à prefeitura do Rio, Marcelo Freixo (PSOL), prometeu mudar as regras do carnaval carioca. Segundo Freixo, o município, que patrocina a festa, só concederia verba aos enredos às escolas de samba cujo desfile oferecesse uma contrapartida cultural. De acordo com a proposta do candidato, a organização e o controle da festa - que atualmente são feitas pela Riotur e pela Liga das Escolas de Samba (Liesa) - passaria a ser feito pela Secretaria de Cultura, que poderia aprovar ou não o patrocínio às agremiações, dependendo do teor do enredo. A medida, no entanto, poderia ser interpretada como uma censura ao carnaval. Ao ser questionado sobre o assunto, Freixo demonstrou irritação e ainda aproveitou para atacar o atual prefeito e candidato à reeleição, Eduardo Paes (PMDB):
- Isso é o respeito ao dinheiro público, que não tem nenhuma prestação de contas. Ninguém concorda com isso. O controle do carnaval hoje tem que ser feito pela Liesa? A venda de ingresso hoje tem que ser feita pela Liesa? Isso não é controlar os enredos. As escolas têm toda a liberdade de escolher o enredo. Mas, se quiserem dinheiro público tem que ter contrapartida cultural. Como qualquer artista. Antes de ser um evento turístico de propaganda, o carnaval é uma manifestação cultural. Quem vai definir se a escola vai receber a verba ou não será a secretaria de Cultura, que vai estabelecer os critérios para isso. E não a Riotur, que só pensa no turismo - disse Freixo.


O candidato do PSOL à prefeitura do Rio de Janeiro, Marcelo Freixo, foi entrevistado ao vivo nesta quarta-feira (22), no RJTV, pelo apresentador Márcio Gomes. Até o fim da semana, o telejornal vai entrevistar os cinco candidatos mais bem colocados na pesquisa Ibope do último dia 16 e cujos partidos têm representação na Câmara dos Deputados.

Na quinta (23) e na sexta (24), serão exibidas entrevistas com Rodrigo Maia (DEM) e Aspásia Camargo (PV), respectivamente. Na segunda-feira (20), o entrevistado foi Otávio Leite (PSDB). Na terça (22), foi a vez de Eduardo Paes (PMDB).

Márcio Gomes:  Até 2010, o senhor Morava em Niterói. Inclusive, só transferiu seu título eleitoral, aqui para a capital, em agosto do ano passado. Um ano, portanto. A presidente do seu partido, a deputada Janira (Rocha), chegou a dizer que o senhor seria um nome natural à prefeitura de Niterói, mas veio aqui para o Rio cumprir uma missão. A pergunta é a seguinte: a motivação para ser prefeito do Rio de Janeiro não tem que ser algo maior do que a missão de um partido?A ordem foi definida por sorteio com a participação de representantes dos partidos. O tempo da entrevista é de oito minutos, com uma tolerância de trinta segundos.
Marcelo Freixo: Tem, tem que ser a possibilidade da vitória e um desejo da sociedade. E a gente tem plenas condições de chegar ao segundo turno. Já estamos em segundo (lugar). Márcio, fui candidato a deputado em 2010. Fui o segundo mais bem votado de todo o estado com 167 mil votos, dos quais 115 mil só na cidade do Rio de Janeiro. Então, a legitimidade da minha candidatura na cidade quem deu foi o eleitor. Isso é absolutamente legítimo, honesto. Nunca fui deputado distrital de uma cidade ou outra. Sempre trabalhei com grandes temas, vocês sabem disso. Eu poderia ser candidato em Niterói, que seria uma honra também, ou poderia ser no Rio de Janeiro. A votação me trouxe, até pela importância dessa eleição no Rio de Janeiro, a ser candidato aqui.
Márcio Gomes: Uma questão interessante: já é o seu segundo mandato como deputado estadual. Já são seis anos de mandato. Esta experiência na assembléia legislativa lhe deu alguma experiência para lidar com as coisas da administração de cidade? Buraco de rua? Na calçada? Lixo? Engarrafamentos?
Marcelo Freixo: Olha, Márcio, de alguma maneira sim. Mas eu não acho que este seja só o único papel do prefeito. Eu discordo dessa ideia de que o prefeito seja única e exclusivamente um síndico. O prefeito é quem toma decisões políticas também. No trânsito, ele tem que ter competência administrativa. Isso é fundamental. E aí a competência administrativa vem fundamentalmente da sua capacidade de escolher as melhores pessoas. E, neste sentido, a gente tem toda a condição de ter critério técnico para escolher os melhores quadros. Até porque a gente não fez alianças espúrias para chegar ao poder. Nós podemos ir para a academia, nós podemos ir para a Coppe, da UFRJ, e escolher o melhor secretário de Transportes. Nós podemos aliar confiança política com credibilidade técnica, coisa que outros, que estão aliados com 20 partidos, não podem. E, nesse sentido, não é só uma questão de “síndico”. As decisões política são importantes. E o prefeito tem que ter coragem para fazer os grandes enfrentamentos também.
Márcio Gomes: Recentemente o Rio de Janeiro enfrentou duas grandes greves em setores importantes nas forças de segurança aqui do nosso estado. Em maio do ano passado, os bombeiros entraram em greve e invadiram o quartel central, movimento que teve apoio da população. Mas, em fevereiro deste ano, a gente percebeu que o apoio não foi tão grande assim da população. Até porque as pessoas perceberam que era quase que uma chantagem ao governo. Era uma ameaça de greve dos bombeiros e parte dos policiais às vésperas do carnaval. Foi aí que surgiu uma conversa telefônica da presidente do seu partido de novo, a deputada Janira, com o chefe de um destes movimentos grevistas, o cabo Daciolo, em que ela pedia para ele não encerrar a greve em Salvador — lá havia uma greve de policiais — antes que o movimento grevista começasse aqui no Rio. Como é que o senhor avalia a conduta da sua colega de partido nesse episódio especificamente?
Marcelo Freixo: Márcio, eu já me posicionei sobre isso publicamente. Já dei entrevista e falei no plenário da assembléia legislativa. Primeiro que a luta dos bombeiros, você pontuou muito corretamente, era uma luta justa. A população ficou do lado. As fitas vermelhas fazem o carioca lembrar bem do quanto isso foi importante. As reivindicações eram justas. A deputada Janira estava do lato correto da luta. E é uma excelente parlamentar.
Márcio Gomes: Incentivando uma greve?

Marcelo Freixo:  Não, não. Na defesa da luta dos bombeiros. Nesse episódio, na minha opinião, ela errou. Eu disse isso publicamente na época. Não estou dizendo isso agora não. Na época eu dei entrevista e falei: não acho que esse seja o papel do parlamentar. Acho que, nesse episódio, errou. Isso não invalida a importância que ela tem como parlamentar, que é decisiva hoje no Rio de Janeiro.
Márcio Gomes: Essa é uma questão interessante, então. Se o senhor for eleito e enfrentar uma greve num serviço essencial? Ano passado eu lembro: os professores da rede estadual ficaram dois meses em greve. Sem dúvida eles têm direito a uma manifestação, a entrar em greve. Mas dois meses? Prejudicaram os alunos. O senhor, como prefeito, enfrentando uma greve num serviço essencial: como o senhor vai se posicionar? Vai ter pulso firme?

Marcelo Freixo:  Sim, claro. Mas o meu posicionamento é anterior à greve, valorizando o servidor.

Márcio Gomes:  Vai cortar o ponto do grevista?
Marcelo Freixo: Depende. Depende da situação. Aí depende do setor, depende da situação, depende do que tiver acontecendo. Essa é uma situação que você não tem como prever, Márcio. O ideal é que a gente não precise ter a greve. Hoje tem muita greve porque a gente não tem plano de cargos e salários para o servidor, porque o salário é horroroso, porque não tem diálogo. Por isso tem greve. O nosso governo vai ser um governo de valorização do servidor público. A possibilidade de greve com a gente é muito menor do que com qualquer outro.
Márcio Gomes: Vamos falar um pouco sobre seu programa de governo. No seu programa de governo, o senhor diz que a subvenção, ou seja, ajuda que a prefeitura dá para as escolas de samba construírem o carnaval carioca, vai ser condicionada à “relevância cultural do enredo”. Eu pergunto se essa proposta não significa submeter os enredos das escolas de samba do Rio a uma censura prévia. Essa escola tem um enredo bom, ganha subvenção. Essa aqui, não. Essa não merece dinheiro. É assim?
Marcelo Freixo: Não. Muito pelo contrário. É o respeito ao dinheiro público. Aliás, o dinheiro público que vai para as escolas de samba não tem uma prestação de contas. Ninguém concorda com isso. Tenho certeza de que você não concorda com isso. Por que o controle do carnaval hoje é feito pela Liesa? Por que é que a venda de ingressos hoje tem que ser feita em dinheiro? Para comprar ingresso para a escola de samba hoje tem que ser em dinheiro, Márcio. Não pode ser em cartão de crédito.
Márcio Gomes: Mas por que controlar os enredos?
Marcelo Freixo: Não é controlar os enredos. As escolas têm toda a liberdade. É só a gente ler direito. As escolas têm toda a liberdade de escolher o seu enredo, mas se quiser dinheiro público, tem que ter contrapartida cultural como qualquer artista.
Márcio Gomes: Mas isso não é uma censura? O senhor vai dizer qual enredo pode receber dinheiro da prefeitura ou não?
Marcelo Freixo: Eu não estou dizendo qual enredo pode receber dinheiro. Qualquer show, qualquer evento cultural que vai receber o dinheiro público tem que ter contrapartida.
Márcio Gomes: E qual é a contrapartida que essa escola vai ter que dar?
Marcelo Freixo: A contrapartida cultural. O carnaval, antes de ser um evento turístico de propaganda, é uma manifestação cultural do Rio de Janeiro.
Márcio Gomes: O senhor que vai decidir se o enredo vai receber ou não?
Marcelo Freixo: Não, a Secretaria de Cultura, e não a Riotur, pensando só no turismo. Como faz para qualquer outro espetáculo em qualquer outro lugar. Qualquer espetáculo de teatro, de música, de artes, se tem dinheiro público...
Márcio Gomes: E essa pessoa da Secretaria de Cultura vai ser escolhida por quem? Pelo senhor?
Marcelo Freixo: O setor da Secretaria de Cultura que vai controlar o carnaval e estabelecer critérios, junto com os profissionais do carnaval, para que o dinheiro público só possa... Qual é o sentido, Márcio, de uma escola de samba que vai fazer o seu enredo sobre a Ilha de Caras ainda receber subvenção? E só estar escolhendo a Ilha de Caras para poder ganhar dinheiro para a escola de samba? É dinheiro público, tem que ter respeito.
Márcio Gomes: No ano passado, surgiu uma série de denúncias contra sua segurança pessoal, de ameaças quanto á sua segurança pessoal. Até por conta disso, o senhor foi convidado pela Anistia internacional para ir para a Espanha. O senhor ficou 15 dias na Espanha. No início até se falou que o senhor faria palestras na Espanha, mas depois a própria Anistia disse que não. Eram reuniões onde o senhor iria apresentar a real situação das milícias aqui do nosso estado. A questão é que a maneira como o senhor anunciou essa viagem ficou fazendo parecer para muitas pessoas como uma espécie de autoexílio, quando na verdade a viagem tinha só 15 dias. O senhor teve até a oportunidade de desfazer essa impressão numa entrevista à revista “Isto É”. Mas eu me permito ler. Essa entrevista foi dada no dia da sua viagem. O senhor disse: “Dependendo da situação, pode ser de vez.” Esse comportamento não justifica todas as críticas que o senhor recebeu naquela época de uma exploração eleitoral desse episódio?

Marcelo Freixo: Então, essa parte da “Isto É”... Eu nunca disse isso para o repórter. Até porque, quando eu viajei, eu já tinha passagem de ida e volta. Isso está comprovado. Quando eu fui, eu já tinha passagem de volta comprada.
Márcio Gomes: Mas o senhor nunca disse isso dos 15 dias, né?
Marcelo Freixo: Eu falei 15 dias, eu tinha 15 dias de folga, de saída daqui. Por uma razão específica, Márcio...
Márcio Gomes: Mas o senhor falou que a viagem podia ser de vez...
Marcelo Freixo: Não. Nunca falei isso para a “Isto É”.
Márcio Gomes: Não?
Marcelo Freixo: Nunca falei isso para a “Isto É”. Tanto é que eu tinha passagem de ida e volta comprada antecipadamente. Porque eu não queria ficar lá de vez. Porque eu não abro mão da minha luta aqui contra a máfia. Eu quero dizer o seguinte: eu sou ameaçado desde 2008, quando fui presidi a CPI das milícias. Ameaças seríssimas. Em 2011, eles mataram uma juíza. Depois da morte da Patrícia Acioli, eu recebi várias ameaças. Foi por isso.

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